Sintomas da Doença Celíaca: Muito Além da Diarreia

Sintomas da Doença Celíaca: Muito Além da Diarreia

Quando falamos em doença celíaca, a maioria das pessoas pensa imediatamente em diarreia e dor de barriga. Mas a verdade é que os sintomas podem ir muito, muito além do trato gastrointestinal. Neste artigo, vou te mostrar como a doença celíaca pode se manifestar de formas que você talvez nunca tenha associado ao glúten.

Neste artigo

Por Taissa Castello, nutricionista CRN-4 25106120, especializada em doença celíaca, alergias alimentares e saúde intestinal.


Por que a doença celíaca é tão subdiagnosticada?

A doença celíaca afeta cerca de 1 a 2% da população mundial, mas estima-se que a grande maioria dos celíacos ainda não sabe que tem a doença. No Brasil, a demora média entre o início dos sintomas e o diagnóstico pode chegar a 10 anos (Rubio-Tapia et al., 2023). Isso acontece porque os sintomas são extremamente variados e frequentemente atribuídos a outras condições.

“Eu demorei 9 anos para ter o diagnóstico. Existe uma média mais ou menos de 10 anos de demora até o diagnóstico. Então as pessoas ficam passando de médico em médico, passando mal, sintoma, nunca sabe o que é. Cheguei a ouvir tipo ‘ah isso é coisa da sua cabeça’. Então assim é difícil o diagnóstico.”

— Taissa Castello, PodIgest Ep. 3

A doença celíaca é uma doença autoimune crônica desencadeada pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente predispostos (portadores dos genes HLA-DQ2 e/ou HLA-DQ8). Quando o glúten chega ao intestino delgado, o sistema imunológico do celíaco desencadeia uma resposta inflamatória que destrói as vilosidades intestinais — as estruturas responsáveis pela absorção de nutrientes (Al-Toma et al., 2019).

Se você quer entender mais sobre a doença em si e o que fazer após o diagnóstico, recomendo a leitura do nosso Guia Completo para Recém-Diagnosticados com Doença Celíaca.

Os sintomas gastrointestinais “clássicos”

Os sintomas digestivos ainda são os mais conhecidos e incluem:

  • Diarreia crônica — historicamente considerada o sintoma principal, mas na verdade presente em menos da metade dos celíacos adultos
  • Distensão abdominal e gases — sensação de barriga inchada, especialmente após refeições
  • Dor abdominal recorrente — cólicas e desconforto que vão e voltam
  • Constipação — sim, a doença celíaca também pode causar intestino preso, o que confunde muitos profissionais
  • Náuseas e vômitos — mais comuns em crianças
  • Esteatorreia — fezes gordurosas, volumosas e com odor forte, indicando má absorção de gorduras

Porém, o que a maioria das pessoas não sabe é que a apresentação da doença celíaca mudou significativamente nas últimas décadas. A forma “clássica” com diarreia abundante é cada vez menos frequente, dando lugar a manifestações atípicas e extraintestinais (Rubio-Tapia et al., 2023).

Sintomas extraintestinais: quando o corpo fala de outras formas

Essa é a parte que considero mais importante deste artigo. Muitos celíacos passam anos procurando respostas para sintomas que parecem não ter relação com o intestino. Mas a inflamação crônica e a má absorção causadas pela doença celíaca afetam o corpo inteiro.

Mapa corporal dos sintomas da doença celíaca: sintomas gastrointestinais e extraintestinais incluindo anemia, fadiga, dermatite herpetiforme, neuropatia e infertilidade

“Às vezes o paciente ele não se toca que aquele sintoma é relacionado à doença celíaca. A pessoa fala ‘ah eu ando muito cansada, tô cansada sempre’. A fadiga pode ter a ver com a doença celíaca. ‘Ah eu durmo mal’, tem a ver com a doença celíaca. Dor de cabeça, sintomas extraintestinais que a gente fala, até depressão, ansiedade pode ter a ver.”

— Taissa Castello, PodIgest Ep. 7

1. Anemia ferropriva refratária

A anemia por deficiência de ferro que não responde à suplementação oral é um dos sinais mais comuns da doença celíaca não diagnosticada. A lesão das vilosidades intestinais, especialmente no duodeno (onde o ferro é absorvido), impede a absorção adequada desse mineral. Segundo o American College of Gastroenterology (ACG), todo paciente com anemia ferropriva inexplicada deve ser investigado para doença celíaca (Rubio-Tapia et al., 2023).

“A doença celíaca é como se fosse uma lixa. Essas vilosidades vão ficando pequenininhas, elas não conseguem absorver nutrientes. Então existem algumas deficiências nutricionais que acontecem frequentemente. A gente precisa estar bem atento no caso dos celíacos, por exemplo ferro, vitamina D.”

— Taissa Castello, PodIgest Ep. 3

2. Fadiga crônica

O cansaço persistente e desproporcional é uma queixa extremamente frequente entre celíacos. Pode ser resultado direto da anemia, da deficiência de vitaminas do complexo B, da inflamação sistêmica crônica ou de uma combinação de todos esses fatores. Muitos pacientes descrevem uma exaustão que não melhora com repouso.

3. Dores articulares e musculares

Artralgia (dor nas articulações) e mialgia (dor muscular) estão presentes em uma parcela significativa dos celíacos. A inflamação sistêmica causada pela resposta autoimune pode afetar as articulações, simulando quadros de artrite. Essas dores frequentemente melhoram significativamente após o início da dieta sem glúten (Al-Toma et al., 2019).

4. Dermatite herpetiforme

A dermatite herpetiforme é a manifestação cutânea da doença celíaca. Apresenta-se como lesões vesiculares intensamente pruriginosas (que coçam muito), geralmente simétricas, nas superfícies extensoras dos cotovelos, joelhos, nádegas e couro cabeludo. É considerada diagnóstica de doença celíaca — se você tem dermatite herpetiforme, você tem doença celíaca, mesmo sem sintomas gastrointestinais (Al-Toma et al., 2019).

5. Manifestações neurológicas

Uma das áreas mais intrigantes e ainda em estudo é a relação entre doença celíaca e sistema nervoso. As manifestações neurológicas incluem:

  • Enxaqueca e cefaleia crônica
  • Neuropatia periférica — formigamento, dormência ou dor nas mãos e pés
  • Ataxia do glúten — alteração de equilíbrio e coordenação motora
  • Depressão e ansiedade — que podem melhorar substancialmente com a dieta sem glúten
  • Névoa mental (brain fog) — dificuldade de concentração e memória

Estudos mostram que até 22% dos pacientes celíacos apresentam alguma manifestação neurológica, sendo a neuropatia periférica e a ataxia as mais documentadas na literatura (Al-Toma et al., 2019).

6. Defeitos no esmalte dentário

Defeitos do esmalte dos dentes permanentes — como manchas brancas, amareladas ou amarronzadas, sulcos ou fissuras, e esmalte fino e frágil — são uma manifestação da doença celíaca frequentemente ignorada. Ocorrem principalmente quando a doença está ativa durante a formação dos dentes permanentes (infância). Aftas recorrentes (estomatite aftosa) também são muito comuns em celíacos não tratados.

7. Infertilidade e problemas reprodutivos

A doença celíaca não diagnosticada pode causar:

  • Infertilidade feminina e masculina
  • Abortos espontâneos de repetição
  • Parto prematuro e baixo peso ao nascer
  • Menarca tardia e menopausa precoce
  • Amenorreia (ausência de menstruação)

As diretrizes do ACG recomendam investigar doença celíaca em pacientes com infertilidade inexplicada (Rubio-Tapia et al., 2023). A deficiência de nutrientes como folato, zinco e ferro, combinada com a inflamação crônica, pode afetar significativamente a saúde reprodutiva.

8. Alterações ósseas

A má absorção de cálcio e vitamina D, somada à inflamação crônica, frequentemente leva a osteopenia e osteoporose em celíacos. Isso pode se manifestar como fraturas por baixo impacto, dores ósseas ou, em crianças, atraso no crescimento. A densitometria óssea é recomendada para celíacos no momento do diagnóstico (Rubio-Tapia et al., 2023).

9. Elevação das transaminases hepáticas

A chamada “hepatite celíaca” é uma elevação das enzimas hepáticas (TGO/TGP) sem causa aparente. Pode ser o único sinal de doença celíaca em alguns pacientes. As diretrizes europeias (ESsCD) recomendam investigar doença celíaca em todo paciente com elevação inexplicada de transaminases (Al-Toma et al., 2019).

Doença celíaca silenciosa: quando o intestino sofre sem dar sinais

“Nem todo celíaco tem sintomas digestivos. Muitos vivem anos sem saber que tem doença celíaca, porque o corpo fala de outra forma. A doença celíaca silenciosa é aquela em que o intestino está lesionado, mas os sintomas gastrointestinais são mínimos ou até inexistentes. Mesmo assim, a inflamação e a má absorção estão acontecendo.”

— Taissa Castello

A doença celíaca pode ser classificada em diferentes formas de apresentação:

  • Forma clássica: predominância de sintomas gastrointestinais (diarreia, distensão, má absorção)
  • Forma não clássica: sintomas extraintestinais predominantes (anemia, fadiga, dores articulares, dermatite herpetiforme)
  • Forma silenciosa (assintomática): sem sintomas aparentes, mas com sorologia positiva e lesão intestinal na biópsia. Frequentemente descoberta em rastreamento de familiares de celíacos
  • Forma potencial (latente): sorologia positiva, mas sem lesão intestinal na biópsia. Requer acompanhamento

É por isso que o rastreamento de familiares de primeiro grau (pais, filhos, irmãos) é tão importante: mesmo sem sintomas, eles podem ter a doença ativa e sofrer consequências a longo prazo como osteoporose, anemia e até linfoma intestinal (Brasil, 2025).

Sintomas em crianças vs. adultos

A apresentação da doença celíaca varia significativamente conforme a faixa etária:

Em crianças pequenas (1-3 anos)

  • Diarreia crônica e distensão abdominal importante (“barriguinha de celíaco”)
  • Atraso no crescimento e no ganho de peso (falha de crescimento)
  • Irritabilidade excessiva e choro frequente
  • Vômitos recorrentes
  • Perda muscular, especialmente nos membros e glúteos
  • Inapetência (falta de apetite)

Em crianças maiores e adolescentes

  • Baixa estatura
  • Atraso puberal
  • Defeitos no esmalte dentário
  • Anemia ferropriva
  • Dor abdominal recorrente
  • Constipação (muitas vezes confundida com SII)
  • Dificuldade de concentração e queda no rendimento escolar

Em adultos

  • Predominância de sintomas extraintestinais (anemia, fadiga, osteoporose)
  • Diarreia ou constipação intermitente
  • Sintomas frequentemente confundidos com síndrome do intestino irritável
  • Infertilidade inexplicada
  • Manifestações neurológicas (neuropatia, enxaqueca, névoa mental)
  • Dermatite herpetiforme
  • Elevação das transaminases hepáticas

É importante destacar que muitos adultos diagnosticados com doença celíaca relatam, em retrospecto, sintomas desde a infância que nunca foram investigados adequadamente.

Quando suspeitar de doença celíaca?

A doença celíaca deve ser investigada nas seguintes situações:

  • Diarreia crônica ou constipação inexplicada
  • Anemia ferropriva que não responde à suplementação
  • Fadiga crônica sem causa aparente
  • Distensão abdominal persistente
  • Perda de peso involuntária
  • Deficiências nutricionais recorrentes (ferro, vitamina D, B12, folato, cálcio, zinco)
  • Baixa estatura em crianças
  • Atraso puberal
  • Infertilidade inexplicada ou abortos de repetição
  • Osteoporose prematura (antes dos 50 anos ou em homens)
  • Dermatite herpetiforme
  • Elevação inexplicada de transaminases
  • Sintomas neurológicos inexplicados (neuropatia, ataxia)
  • Síndrome do intestino irritável que não melhora com tratamento convencional
  • Familiares de primeiro grau de celíacos
  • Portadores de outras doenças autoimunes (diabetes tipo 1, tireoidite de Hashimoto)

Além disso, a correlação entre doença celíaca e outras condições intestinais, como o SIBO (supercrescimento bacteriano do intestino delgado), também merece atenção. Muitos celíacos que já retiram o glúten mas continuam com sintomas podem ter SIBO como condição associada.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico de doença celíaca envolve uma combinação de exames sorológicos (de sangue) e biópsia intestinal. É fundamental que o paciente esteja consumindo glúten no momento dos exames, caso contrário os resultados podem ser falsamente negativos.

Exames sorológicos

  • Anticorpo anti-transglutaminase tecidual IgA (anti-tTG IgA) — é o exame de primeira linha, com alta sensibilidade e especificidade. É o mais utilizado para rastreamento e acompanhamento
  • Anticorpo anti-endomísio IgA (anti-EMA) — altamente específico (quase 100%). Usado como exame confirmatório
  • Dosagem de IgA total — importante porque cerca de 2-3% dos celíacos têm deficiência de IgA, o que pode causar resultados falso-negativos nos testes acima. Nesses casos, utilizam-se anticorpos da classe IgG
  • Anticorpo anti-gliadina deamidada IgG (anti-DGP IgG) — útil em crianças menores de 2 anos e em pacientes com deficiência de IgA

“Pra gente acompanhar esse paciente que já tem um diagnóstico de doença celíaca, ideal a gente começar com os exames de sangue. Então, a gente vê anticorpo antitransglutaminase tecidual, anticorpo antigliadina, anticorpo antiendomísio. Eles são anticorpos importantes pra gente acompanhar a evolução desse paciente, se tá tendo contaminação cruzada, como é que tá sendo essa dieta sem glúten.”

— Taissa Castello

Biópsia intestinal

A biópsia do intestino delgado (obtida por endoscopia digestiva alta) continua sendo o padrão-ouro para o diagnóstico na maioria dos casos em adultos. Devem ser coletados pelo menos 4 a 6 fragmentos do duodeno, incluindo do bulbo duodenal. As alterações características incluem (classificação de Marsh-Oberhuber):

  • Aumento dos linfócitos intraepiteliais (Marsh 1)
  • Hiperplasia das criptas (Marsh 2)
  • Atrofia das vilosidades — parcial (Marsh 3a), subtotal (Marsh 3b) ou total (Marsh 3c)

Em crianças com sintomas claros, sorologia muito elevada (anti-tTG IgA acima de 10 vezes o valor de referência) e anti-EMA positivo em segunda amostra, as diretrizes da ESPGHAN permitem o diagnóstico sem biópsia. Em adultos, a biópsia ainda é recomendada pela maioria das sociedades (Rubio-Tapia et al., 2023; Al-Toma et al., 2019).

Tipagem genética (HLA-DQ2 e HLA-DQ8)

Cerca de 95% dos celíacos são portadores do gene HLA-DQ2, e a maioria dos restantes tem o HLA-DQ8. A presença desses genes não confirma a doença (40% da população os possui), mas a ausência deles praticamente exclui o diagnóstico. É mais útil para descartar a doença em casos duvidosos e para rastrear familiares (Brasil, 2025).

O papel do nutricionista no acompanhamento

O diagnóstico é apenas o começo. A dieta sem glúten — que é o único tratamento para a doença celíaca — precisa ser rigorosa e para a vida toda. O acompanhamento com nutricionista especializado é fundamental para:

  • Garantir uma dieta 100% sem glúten e sem contaminação cruzada
  • Identificar e corrigir deficiências nutricionais
  • Monitorar a evolução através de exames periódicos
  • Apoiar no processo de adaptação alimentar
  • Investigar e tratar condições associadas (como SIBO, intolerância à lactose secundária)
  • Promover qualidade de vida e saúde intestinal a longo prazo

“Quando o paciente vem para mim e ele acabou de ter o diagnóstico, a primeira coisa que eu falo para ele é que a gente tem que aumentar muito a quantidade de fibra. A fibra acaba sendo ingerida pelas nossas bactérias intestinais, que produzem metabólitos que são alimentos bons também pras nossas células intestinais, são os ácidos graxos de cadeia curta.”

— Taissa Castello, PodIgest Ep. 3

Se você se identificou com algum desses sintomas, converse com seu médico sobre a possibilidade de investigar doença celíaca. E se você já tem o diagnóstico e precisa de acompanhamento nutricional especializado, saiba mais sobre o meu trabalho e como posso te ajudar.


Referências

  1. Rubio-Tapia A, Hill ID, Semrad C, et al. American College of Gastroenterology Guidelines Update: Diagnosis and Management of Celiac Disease. Am J Gastroenterol. 2023;118(1):59-76. doi:10.14309/ajg.0000000000002075
  2. Al-Toma A, Volta U, Auricchio R, et al. European Society for the Study of Coeliac Disease (ESsCD) guideline for coeliac disease and other gluten-related disorders. United European Gastroenterol J. 2019;7(5):583-613. doi:10.1177/2050640619844125
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) — Doença Celíaca. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
  4. Lebwohl B, Sanders DS, Green PHR. Coeliac disease. Lancet. 2018;391(10115):70-81. doi:10.1016/S0140-6736(17)31796-8
  5. Caio G, Volta U, Sapone A, et al. Celiac disease: a comprehensive current review. BMC Med. 2019;17(1):142. doi:10.1186/s12916-019-1380-z

Próximo passo: Se você se identificou com esses sintomas, entenda como é feito o diagnóstico da doença celíaca. E se já tem o diagnóstico, veja o que o celíaco pode e não pode comer.

Aviso legal: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por profissional de saúde habilitado. Cada pessoa tem necessidades individuais que devem ser avaliadas em consulta presencial ou por teleconsulta. Não inicie, altere ou suspenda qualquer tratamento sem orientação médica ou nutricional. Leia nosso aviso legal completo.

Última revisão por Taissa Castello, nutricionista CRN-4 25106120, em 16/04/2026.

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