Doença Celíaca: Guia Completo de uma Nutricionista Especialista
A doença celíaca é uma das condições autoimunes mais comuns do mundo — e, ao mesmo tempo, uma das mais subdiagnosticadas. Estima-se que 1 a 2% da população mundial seja celíaca, mas a maioria ainda não sabe. No Brasil, milhares de pessoas convivem anos com sintomas sem receber o diagnóstico correto. Eu sei o que isso significa porque eu mesma sou celíaca e demorei 9 anos até descobrir. Neste guia completo, reúno tudo o que você precisa saber sobre a doença celíaca: o que é, quem pode desenvolver, sintomas, diagnóstico, tratamento nutricional, dieta sem glúten, contaminação cruzada e como viver bem com essa condição — com base nas diretrizes mais atuais (ACG 2023, ESsCD 2019 e PCDT 2025) e na minha experiência clínica e pessoal.
Neste artigo
Por Taissa Castello, nutricionista CRN-4 25106120, especializada em doença celíaca, alergias alimentares e saúde intestinal.
O que é doença celíaca?
A doença celíaca é uma doença autoimune sistêmica desencadeada pela ingestão de glúten — uma proteína presente no trigo, centeio e cevada — em pessoas geneticamente predispostas. Quando uma pessoa celíaca ingere glúten, o sistema imunológico ataca por engano o próprio revestimento do intestino delgado, danificando as vilosidades intestinais — pequenas projeções em forma de dedo responsáveis pela absorção de nutrientes (Lebwohl et al., 2018).
Diferente de uma alergia alimentar ou de uma intolerância, a doença celíaca envolve um mecanismo autoimune específico: o corpo produz anticorpos (anti-transglutaminase tecidual e anti-endomísio) que atacam a mucosa intestinal. É uma condição crônica, com base genética definida — os genes HLA-DQ2 (presente em ~95% dos celíacos) e HLA-DQ8 (nos demais ~5%) — e o único tratamento comprovado é a dieta sem glúten rigorosa e vitalícia (Rubio-Tapia et al., 2023).
Segundo a diretriz ACG 2023, a doença celíaca afeta aproximadamente 1-2% da população mundial, sendo amplamente subdiagnosticada. No Brasil, estudos de rastreamento sugerem prevalência semelhante, mas a maioria dos casos permanece sem diagnóstico — em parte pela grande variabilidade de sintomas e em parte pelo desconhecimento de muitos profissionais de saúde (Caio et al., 2019).
“A doença celíaca acontece quando o ser humano come o glúten, ingere o glúten, e se ele tem uma predisposição ele pode desenvolver a doença celíaca que é uma autoimune. Quando o glúten chega no nosso intestino nenhum ser humano consegue digerir ele, nem o celíaco nem o não celíaco. Não são todas as pessoas que têm a genética que vão desenvolver. Cerca de 40% da população mundial tem a genética para doença celíaca mas só 1 a 2% da população desenvolve.”
— Taissa Castello, PodIgest Ep. 3
Essa é uma informação crucial: nenhum ser humano digere completamente o glúten. A diferença é que, em pessoas celíacas, esses fragmentos não digeridos (chamados peptídeos de gliadina) desencadeiam uma reação imunológica intensa e destrutiva. A enzima transglutaminase tecidual (tTG) modifica esses peptídeos, tornando-os ainda mais reconhecíveis pelo sistema imune — o que amplifica a resposta inflamatória e o dano à mucosa intestinal (Fasano & Catassi, 2012).
Quem pode desenvolver doença celíaca?
A doença celíaca é uma condição com forte componente genético, mas a genética sozinha não determina o desenvolvimento da doença. São necessários três fatores para que ela se manifeste:

- Predisposição genética — presença dos genes HLA-DQ2 e/ou HLA-DQ8
- Ingestão de glúten — o gatilho ambiental
- Fatores adicionais — que “ligam o interruptor” da doença (infecções, estresse, alterações na microbiota, entre outros)
Cerca de 40% da população mundial carrega os genes HLA-DQ2 ou HLA-DQ8. No entanto, apenas 1 a 2% desenvolve a doença celíaca de fato. Isso significa que ter a genética é necessário, mas não é suficiente. A ciência moderna entende que fatores epigenéticos — como infecções gastrointestinais, uso de antibióticos na infância, composição da microbiota e estresse — podem “ativar” ou “silenciar” a expressão desses genes (Caio et al., 2019).
“A gente tem até hoje em dia um conceito da epigenética que vem emergindo. Você tem a predisposição, não é um destino. Através da epigenética a gente tem que pensar no gene como interruptor.”
— Taissa Castello, PodIgest Ep. 2
Os grupos de maior risco para desenvolver doença celíaca incluem:
- Parentes de primeiro grau de celíacos — risco de 10 a 15% (comparado com 1-2% na população geral)
- Portadores de diabetes tipo 1 — prevalência de doença celíaca entre 3 e 10%
- Pessoas com tireoidite de Hashimoto e outras doenças autoimunes
- Portadores de síndrome de Down, síndrome de Turner e síndrome de Williams
- Pessoas com deficiência seletiva de IgA
- Pacientes com anemia por deficiência de ferro refratária ao tratamento oral
A doença celíaca pode se manifestar em qualquer idade — desde a introdução do glúten na alimentação do bebê até a terceira idade. Nos adultos, o pico de diagnóstico ocorre entre 30 e 50 anos, mas é cada vez mais comum o diagnóstico tardio em idosos. Um estudo publicado no Lancet mostrou que a doença celíaca pode permanecer silenciosa durante décadas antes de se manifestar clinicamente (Lebwohl et al., 2018).
Sintomas da doença celíaca: o espectro completo
Um dos maiores desafios da doença celíaca é a enorme variabilidade dos sintomas. A “doença celíaca clássica” — com diarreia crônica, distensão abdominal e perda de peso — representa apenas uma fração dos casos. A maioria dos celíacos hoje apresenta o que chamamos de formas não clássicas ou até mesmo doença celíaca silenciosa (sem sintomas aparentes, mas com dano intestinal ativo).
Sintomas gastrointestinais
- Diarreia crônica — o sintoma “clássico”, mas presente em menos da metade dos celíacos adultos
- Constipação — sim, celíacos também podem ter intestino preso
- Distensão abdominal e inchaço
- Dor abdominal recorrente
- Náuseas e vômitos
- Flatulência excessiva
- Esteatorreia — fezes gordurosas e malcheirosas (por má absorção de gorduras)
- Intolerância à lactose secundária — pelo dano às vilosidades que produzem a enzima lactase
Sintomas extraintestinais
Estes são os sintomas que mais dificultam o diagnóstico, pois aparentemente “não têm nada a ver com o intestino”:
- Anemia por deficiência de ferro — muitas vezes refratária ao tratamento com suplemento oral (frequentemente o primeiro sinal)
- Fadiga crônica e falta de energia
- Dores articulares e musculares
- Dermatite herpetiforme — erupção cutânea com bolhas pruriginosas (considerada a “doença celíaca da pele”)
- Aftas recorrentes (estomatite aftosa)
- Defeitos no esmalte dentário
- Manifestações neurológicas — neuropatia periférica, ataxia, enxaqueca, “névoa mental”
- Alterações de humor — ansiedade, irritabilidade, depressão
- Osteoporose ou osteopenia precoce — por má absorção de cálcio e vitamina D
- Problemas reprodutivos — infertilidade inexplicada, abortos recorrentes, menarca tardia, menopausa precoce
- Baixa estatura em crianças (déficit de crescimento)
- Elevação de transaminases hepáticas sem causa aparente
“A doença celíaca é como se fosse uma lixa. Essas vilosidades vão ficando pequenininhas, elas não conseguem absorver nutrientes. Então existem algumas deficiências nutricionais que acontecem frequentemente. A gente precisa estar bem atento no caso dos celíacos, por exemplo ferro, vitamina D.”
— Taissa Castello, PodIgest Ep. 3
Doença celíaca silenciosa e potencial
Existem ainda formas da doença celíaca que não apresentam sintomas evidentes. Na doença celíaca silenciosa, a pessoa não percebe nenhum sintoma, mas os exames de sangue e a biópsia revelam dano intestinal ativo. Na doença celíaca potencial (ou latente), os anticorpos estão positivos, mas a biópsia intestinal ainda é normal — ou seja, o dano ainda não se instalou de forma evidente. Ambas as formas requerem acompanhamento especializado (Al-Toma et al., 2019).
Para entender cada sintoma em detalhe — incluindo os menos conhecidos e como diferenciá-los de outras condições — leia: Sintomas da doença celíaca: os clássicos e os que ninguém conta.
Como é feito o diagnóstico da doença celíaca
O diagnóstico da doença celíaca segue um protocolo bem estabelecido, que envolve três pilares: exames sorológicos (de sangue), biópsia intestinal e, em casos específicos, teste genético. O problema é que muitos profissionais ainda desconhecem o protocolo correto — o que contribui para a demora média de 6 a 10 anos até o diagnóstico (Rubio-Tapia et al., 2023).
“Eu demorei 9 anos para ter o diagnóstico. Existe uma média mais ou menos de 10 anos de demora até o diagnóstico. Então as pessoas ficam passando de médico em médico, passando mal, sintoma, nunca sabe o que é.”
— Taissa Castello, PodIgest Ep. 3
Exames sorológicos (de sangue)
O primeiro passo do diagnóstico é a dosagem de anticorpos específicos no sangue. O exame mais utilizado e recomendado pelas diretrizes é o anticorpo anti-transglutaminase tecidual IgA (anti-tTG IgA), combinado com a dosagem de IgA total (para descartar deficiência de IgA, que pode gerar resultados falso-negativos). Em pacientes com deficiência de IgA confirmada, solicita-se a classe IgG dos anticorpos.
Outros anticorpos que podem ser utilizados incluem o anti-endomísio (EMA) — altamente específico — e os anticorpos anti-peptídeo deaminado de gliadina (anti-DGP).
Biópsia intestinal
A biópsia do duodeno obtida por endoscopia digestiva alta ainda é considerada o padrão-ouro para confirmação do diagnóstico na maioria dos adultos. As alterações histológicas são classificadas pela escala de Marsh (ou Marsh-Oberhuber), que avalia o grau de linfocitose intraepitelial, hiperplasia de criptas e atrofia das vilosidades. A classificação vai de Marsh 0 (normal) a Marsh 3c (atrofia total das vilosidades).
A diretriz ACG 2023 recomenda a coleta de pelo menos 4 fragmentos do duodeno, incluindo 1-2 do bulbo duodenal, para reduzir a chance de erro por distribuição irregular do dano (Rubio-Tapia et al., 2023).
Teste genético (HLA-DQ2/DQ8)
O teste genético não confirma o diagnóstico de doença celíaca — ele é usado para excluir. Se a pessoa não possui os genes HLA-DQ2 nem HLA-DQ8, é praticamente impossível que ela tenha doença celíaca. Esse teste é particularmente útil em familiares de celíacos e em situações diagnósticas incertas.
⚠️ Atenção fundamental: Todos os exames de sangue e a biópsia para doença celíaca devem ser realizados enquanto a pessoa ainda está consumindo glúten regularmente. Retirar o glúten antes dos exames pode levar a resultados falso-negativos — anticorpos normais e biópsia sem alterações — mesmo que a pessoa seja celíaca. Este é um dos erros mais comuns na prática clínica e motivo de diagnósticos perdidos.
Para o passo a passo detalhado do diagnóstico — incluindo quando e como solicitar cada exame, interpretação dos resultados e situações especiais — leia: Diagnóstico da doença celíaca: passo a passo completo.
Diferença entre doença celíaca, intolerância ao glúten e alergia ao trigo
Uma das confusões mais comuns — tanto entre pacientes quanto entre profissionais de saúde — é misturar três condições completamente diferentes:
- Doença celíaca: doença autoimune. O sistema imune ataca o próprio intestino em resposta ao glúten. Causa dano real à mucosa intestinal. Diagnosticada por anticorpos e biópsia. Requer dieta sem glúten rigorosa e vitalícia.
- Sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC): condição em que o paciente apresenta sintomas ao consumir glúten, mas os exames para doença celíaca e alergia ao trigo são negativos. Não há dano autoimune à mucosa intestinal. É um diagnóstico de exclusão.
- Alergia ao trigo: reação alérgica mediada por IgE às proteínas do trigo (não apenas ao glúten). Pode causar desde urticária e inchaço até anafilaxia. Diagnosticada por testes alérgicos (prick test, IgE específica). Mais comum em crianças e pode ser transitória.
Entender essa diferença é fundamental porque o tratamento, o nível de restrição e o prognóstico são completamente diferentes para cada uma. Para uma comparação detalhada com tabela comparativa, leia: Doença celíaca vs. intolerância ao glúten: qual a diferença?
Tratamento da doença celíaca: a dieta sem glúten
Até o momento, o único tratamento cientificamente comprovado para a doença celíaca é a dieta sem glúten (DSG) rigorosa e vitalícia. Não existe medicamento que cure a doença celíaca, e mesmo pequenas quantidades de glúten podem perpetuar o dano intestinal — mesmo que a pessoa não sinta sintomas imediatamente (Rubio-Tapia et al., 2023).
A dieta sem glúten não é uma “moda” para o celíaco — é tratamento médico. A adesão rigorosa permite:
- Recuperação da mucosa intestinal — as vilosidades começam a se recuperar e a absorção de nutrientes melhora progressivamente. A recuperação histológica completa pode levar de 6 meses a 2 anos em adultos (mais rápida em crianças)
- Resolução dos sintomas — a maioria dos sintomas melhora significativamente nas primeiras semanas a meses
- Normalização dos anticorpos — os anticorpos celíacos tendem a se normalizar em 6 a 12 meses de dieta sem glúten estrita
- Redução do risco de complicações — osteoporose, linfoma intestinal, outras doenças autoimunes associadas
- Correção das deficiências nutricionais — com a recuperação da absorção, os níveis de ferro, cálcio, vitamina D, folato e B12 tendem a melhorar
Muitos pacientes recém-diagnosticados perguntam: “a doença celíaca tem cura?” A resposta é que, com a dieta sem glúten, a mucosa intestinal pode se recuperar completamente — mas a predisposição genética permanece para sempre. Isso significa que a dieta sem glúten nunca pode ser abandonada. Para aprofundar essa questão, leia: Doença celíaca tem cura? O que a ciência diz.
Existem pesquisas promissoras com terapias complementares (enzimas degradadoras de glúten, moduladores da permeabilidade intestinal, vacinas), mas nenhuma está aprovada para uso clínico até o momento. A dieta sem glúten permanece como pilar insubstituível do tratamento.
O que o celíaco pode e não pode comer
A dieta sem glúten exige a exclusão completa de trigo, centeio, cevada e seus derivados — incluindo todos os alimentos, bebidas, medicamentos e suplementos que contenham esses cereais ou seus subprodutos. O glúten pode estar presente em locais inesperados: molhos prontos, temperos industrializados, sopas, embutidos, cerveja, medicamentos e até produtos de higiene oral.
Alimentos naturalmente sem glúten incluem arroz, milho, mandioca, batata, quinoa, amaranto, todas as frutas, verduras, legumes, carnes, peixes, ovos e leguminosas — desde que não estejam contaminados. O celíaco tem um universo alimentar amplo e saboroso quando sabe como navegar.
“Quando o paciente vem para mim e ele acabou de ter o diagnóstico, a primeira coisa que eu falo para ele é que a gente tem que aumentar muito a quantidade de fibra.”
— Taissa Castello, PodIgest Ep. 3
Uma preocupação importante é a aveia. A aveia pura, não contaminada, é tolerada pela maioria dos celíacos. No entanto, no Brasil, praticamente toda aveia comercial tem contaminação cruzada com trigo. Por isso, apenas a aveia certificada sem glúten é segura para celíacos — e mesmo assim, recomenda-se introduzi-la sob orientação profissional (Al-Toma et al., 2019).
Outro ponto fundamental na transição para a dieta sem glúten é evitar cair na armadilha dos ultraprocessados sem glúten — produtos que muitas vezes são pobres em fibras, ricos em açúcar e gordura, e nutricionalmente inferiores. O acompanhamento com um nutricionista especialista garante uma dieta equilibrada, saborosa e nutritiva.
Para listas completas de alimentos permitidos, proibidos e os que exigem atenção, leia: O que o celíaco pode comer? Guia completo de alimentos.
Contaminação cruzada por glúten
Para o celíaco, não basta escolher alimentos sem glúten na lista de ingredientes. A contaminação cruzada — quando um alimento naturalmente sem glúten entra em contato com glúten durante o preparo, armazenamento ou manipulação — pode ser suficiente para causar reação imunológica e manter o dano intestinal ativo.
A contaminação cruzada pode acontecer em diversos pontos:
- Na cozinha de casa: uso compartilhado de tábuas de corte, peneiras de farinha, torradeiras, fritadeiras com óleo reutilizado, esponjas e panos de prato
- Na indústria: linhas de produção compartilhadas entre produtos com e sem glúten
- Em restaurantes: uso do mesmo óleo para fritar empanados e alimentos sem glúten, mesma água para cozinhar massa e outros alimentos
- No armazenamento: farinhas com glúten armazenadas próximas a alimentos sem glúten (partículas em suspensão)
A quantidade de glúten capaz de causar dano em celíacos é extremamente pequena. Estudos indicam que a ingestão deve ser mantida abaixo de 20 partes por milhão (ppm) — esse é o limiar internacional adotado pelo Codex Alimentarius e pela ANVISA para rotulagem de produtos “sem glúten” no Brasil.
Para estratégias práticas de prevenção da contaminação cruzada em casa, na rua e em viagens, leia: Contaminação cruzada por glúten: o que é e como evitar.
Vivendo com doença celíaca no dia a dia
Receber o diagnóstico de doença celíaca pode parecer avassalador no início. A sensação de “não poder mais comer nada” é comum — e compreensível. Mas com informação correta, adaptação e acompanhamento especializado, é absolutamente possível viver bem, com qualidade de vida e prazer à mesa. Algumas dicas fundamentais:
Leitura de rótulos e a Lei 10.674/2003
No Brasil, a Lei Federal nº 10.674/2003 obriga que todos os alimentos industrializados tragam em destaque a informação “CONTÉM GLÚTEN” ou “NÃO CONTÉM GLÚTEN”. Essa é uma das legislações mais avançadas do mundo nessa área. Mesmo assim, é fundamental ler o rótulo completo — muitos produtos que declaram “não contém glúten” não foram testados para contaminação cruzada. Procure por produtos com certificação sem glúten (selo de associações celíacas reconhecidas) para maior segurança.
Comer fora de casa e restaurantes
Comer em restaurantes é uma das maiores preocupações dos celíacos — e com razão. Algumas estratégias que funcionam:
- Ligue antes para perguntar se o restaurante tem opções sem glúten e se a cozinha tem protocolos para contaminação cruzada
- Explique que é doença celíaca, não preferência — isso muda o nível de cuidado da cozinha
- Prefira alimentos simples — carnes grelhadas, saladas, arroz — que são naturalmente sem glúten e mais fáceis de preparar sem contaminação
- Evite buffets por quilo (altíssimo risco de contaminação cruzada pelas colheres compartilhadas)
- Pesquise restaurantes certificados ou recomendados por comunidades celíacas locais
Viagens
Viajar com doença celíaca exige planejamento, mas não impede ninguém de explorar o mundo. Leve sempre snacks seguros na mala, aprenda frases-chave no idioma do destino (“sou celíaca, não posso comer glúten”), pesquise restaurantes com antecedência e considere acomodações com cozinha para preparar suas próprias refeições quando necessário.
Aspectos emocionais e sociais
A doença celíaca tem um impacto real na saúde mental e na vida social. Sentimentos de isolamento, ansiedade social (especialmente em refeições coletivas), frustração e até luto pelo “antes” são comuns e válidos. Buscar apoio em grupos de celíacos (ACELBRA e grupos online), manter acompanhamento psicológico quando necessário e cercar-se de pessoas que respeitam sua condição fazem toda a diferença.
Se você acabou de receber o diagnóstico e não sabe por onde começar, preparamos um guia específico para os primeiros passos: Guia para o celíaco recém-diagnosticado: primeiros passos.
O papel do nutricionista especialista na doença celíaca
O acompanhamento com um nutricionista especialista em doença celíaca é uma das recomendações mais enfáticas das diretrizes internacionais — incluindo ACG 2023, ESsCD 2019 e o PCDT brasileiro de 2025. E há bons motivos para isso:
- Educação alimentar especializada: orientação detalhada sobre quais alimentos são seguros, como ler rótulos, como prevenir contaminação cruzada, como substituir o glúten sem perder qualidade nutricional
- Avaliação e correção de deficiências nutricionais: monitoramento dos níveis de ferro, cálcio, vitamina D, B12, folato, zinco e fibras — comumente alterados no celíaco
- Acompanhamento da recuperação intestinal: adequação gradual da dieta à medida que a mucosa se recupera
- Suporte para situações especiais: gestação, infância, adolescência, celíacos atletas, doença celíaca refratária
- Identificação de condições associadas: como SIBO, intolerância a FODMAPs, e outras intolerâncias alimentares que podem coexistir
- Apoio contínuo: a dieta sem glúten parece simples na teoria, mas na prática exige adaptação constante — e ter um profissional disponível faz toda a diferença
Na minha prática clínica, como nutricionista celíaca, combino o conhecimento técnico-científico com a vivência pessoal da doença. Eu sei o que é receber o diagnóstico, reaprender a cozinhar, lidar com contaminação cruzada e navegar situações sociais. Essa experiência me permite acolher e orientar com uma perspectiva que vai além do consultório. Conheça minha história.
Se você busca acompanhamento nutricional especializado para doença celíaca — seja para um diagnóstico recente ou para otimizar sua dieta sem glúten já existente — conheça meu atendimento.
Perguntas frequentes sobre doença celíaca
O que é doença celíaca?
A doença celíaca é uma doença autoimune crônica em que a ingestão de glúten (proteína do trigo, centeio e cevada) desencadeia uma resposta imunológica que danifica as vilosidades do intestino delgado, comprometendo a absorção de nutrientes. Afeta aproximadamente 1-2% da população mundial.
Quais são os sintomas da doença celíaca?
Os sintomas variam enormemente. Os gastrointestinais incluem diarreia crônica, inchaço, dor abdominal e constipação. Os extraintestinais — frequentemente predominantes em adultos — incluem anemia, fadiga, dores articulares, dermatite herpetiforme, neuropatia e infertilidade.
Doença celíaca tem cura?
A doença celíaca não tem cura no sentido de eliminação permanente. A predisposição genética (HLA-DQ2/DQ8) permanece para sempre. No entanto, com a dieta sem glúten rigorosa, a doença entra em remissão — os anticorpos normalizam, o intestino se regenera e os sintomas desaparecem. Saiba mais.
Qual a diferença entre doença celíaca e intolerância ao glúten?
São condições diferentes. A doença celíaca é autoimune — o sistema imune ataca o intestino, causa dano mensurável e é diagnosticada por anticorpos e biópsia. A sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC) causa sintomas semelhantes mas sem dano intestinal. Entenda as diferenças completas.
Doença celíaca é hereditária?
A doença celíaca tem forte componente genético. Parentes de primeiro grau de celíacos têm risco de 10-15% de desenvolver a condição (contra 1-2% na população geral). Os genes HLA-DQ2/DQ8 são necessários, mas não suficientes — fatores ambientais também precisam estar presentes.
Quais exames detectam doença celíaca?
O protocolo inclui: (1) anticorpo anti-transglutaminase tecidual IgA + IgA total sérica como triagem; (2) biópsia duodenal por endoscopia com pelo menos 4 fragmentos; (3) tipagem genética HLA-DQ2/DQ8 quando necessário. Todos os exames devem ser feitos com glúten na dieta. Veja o passo a passo completo.
O que um celíaco não pode comer?
O celíaco deve excluir completamente trigo, centeio, cevada e seus derivados (incluindo farinha de trigo, semolina, bulgur, cerveja convencional). A aveia só é segura se certificada sem glúten. A contaminação cruzada também deve ser evitada. Veja a lista completa.
Doença celíaca pode aparecer em qualquer idade?
Sim. A doença celíaca pode se manifestar em qualquer momento da vida — desde a introdução do glúten na alimentação do bebê até a terceira idade. Em adultos, o diagnóstico pode vir após anos ou décadas de sintomas inespecíficos.
Celíaco pode comer aveia?
A aveia pura não contém glúten e é tolerada pela maioria dos celíacos (cerca de 95%). O problema é a contaminação cruzada: no Brasil, a maioria das aveias comerciais é processada em linhas que também processam trigo. Consuma apenas aveia certificada sem glúten e sob orientação profissional.
Como saber se tenho doença celíaca?
Se você tem sintomas compatíveis ou pertence a um grupo de risco (familiar de celíaco, outra doença autoimune), procure um gastroenterologista e solicite o anticorpo anti-tTG IgA + IgA total. Não retire o glúten antes dos exames, ou os resultados podem ser falso-negativos.
Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) — Doença Celíaca. 2025.
- Rubio-Tapia A, Hill ID, Semrad C, Kelly CP, Greer KB, Limketkai BN, Lebwohl B. American College of Gastroenterology Guidelines Update: Diagnosis and Management of Celiac Disease. Am J Gastroenterol. 2023;118(1):59-76. doi:10.14309/ajg.0000000000002075
- Al-Toma A, Volta U, Auricchio R, et al. European Society for the Study of Coeliac Disease (ESsCD) guideline for coeliac disease and other gluten-related disorders. United European Gastroenterol J. 2019;7(5):583-613. doi:10.1177/2050640619844125
- Lebwohl B, Sanders DS, Green PHR. Coeliac disease. Lancet. 2018;391(10115):70-81. doi:10.1016/S0140-6736(17)31796-8
- Caio G, Volta U, Sapone A, et al. Celiac disease: a comprehensive current review. BMC Med. 2019;17(1):142. doi:10.1186/s12916-019-1380-z
- Brasil. Lei nº 10.674, de 16 de maio de 2003. Obriga que os produtos alimentícios informem sobre a presença de glúten.
- Fasano A, Catassi C. Celiac disease. N Engl J Med. 2012;367:2419-2426. doi:10.1056/NEJMcp1113994
Aviso legal: Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento por profissional de saúde habilitado. Cada pessoa tem necessidades individuais que devem ser avaliadas em consulta. Não inicie, altere ou suspenda qualquer tratamento sem orientação médica ou nutricional. Leia nosso aviso legal completo.
Última revisão por Taissa Castello, nutricionista CRN-4 25106120, em 16/04/2026.






