SIBO e Hashimoto: Entendendo a Conexão entre Intestino e Tireoide

SIBO e Hashimoto: Entendendo a Conexão entre Intestino e Tireoide

A relação entre a tireoide e o intestino é bidirecional: o hipotireoidismo pode desacelerar o trânsito intestinal e favorecer o supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO), enquanto o SIBO pode comprometer a absorção de nutrientes essenciais para a função tireoidiana. Entender essa conexão pode ajudar pessoas com Hashimoto a organizar, junto à equipe médica, uma investigação mais completa de sintomas digestivos persistentes.

Por Taissa Castello, nutricionista CRN-4 25106120, especializada em doenças autoimunes, SIBO e saúde intestinal.


A conexão bidirecional entre Hashimoto/hipotireoidismo e SIBO

O Hashimoto é a forma mais comum de hipotireoidismo autoimune, em que o sistema imunológico ataca gradualmente a tireoide, reduzindo sua capacidade de produzir hormônios tireoidianos. O SIBO (do inglês small intestinal bacterial overgrowth), por sua vez, é caracterizado pelo crescimento excessivo de bactérias no intestino delgado, região que naturalmente abriga uma quantidade bem menor de micro-organismos do que o intestino grosso. À primeira vista, são condições de sistemas diferentes — uma endócrina, outra digestiva —, mas a literatura científica descreve uma relação bidirecional entre elas.

De um lado, hormônios tireoidianos regulam a motilidade do trato gastrointestinal; quando estão em níveis baixos, o trânsito intestinal desacelera e cria condições favoráveis ao supercrescimento bacteriano. De outro, a disbiose intestinal associada ao SIBO pode aumentar a permeabilidade intestinal e a exposição a antígenos, processos relacionados à ativação imunológica que caracteriza doenças autoimunes como o Hashimoto (Gong et al., 2021). Um estudo de referência conduzido por Lauritano et al. (2007) e publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism avaliou pacientes com histórico de hipotireoidismo e encontrou teste do hidrogênio expirado positivo para SIBO em 54% deles, contra apenas 5% do grupo controle — uma diferença estatisticamente significativa que ajudou a estabelecer essa associação na literatura médica.

Como o hipotireoidismo desacelera a motilidade intestinal: o papel do complexo motor migratório (MMC)

O complexo motor migratório (MMC) é um padrão de contrações que ocorre no intestino delgado entre as refeições, funcionando como um mecanismo de “faxina” que empurra restos alimentares, secreções e bactérias em direção ao intestino grosso. Esse processo é uma das principais defesas naturais do organismo contra o acúmulo excessivo de bactérias no intestino delgado.

Hormônios tireoidianos participam da modulação do sistema nervoso entérico e da atividade motora do trato digestivo. Quando a produção hormonal está reduzida, como ocorre no hipotireoidismo não compensado, a fase III do MMC — a fase de contrações mais fortes e organizadas — tende a ficar mais curta e menos frequente, enquanto o tempo de trânsito intestinal se prolonga (revisão publicada na Frontiers in Physiology, 2024). O hipotireoidismo também está associado à redução na secreção de ácido gástrico e bile, substâncias que têm efeito antimicrobiano natural sobre o conteúdo intestinal. A soma desses fatores — motilidade mais lenta e menor controle bacteriano químico — cria um ambiente propício ao supercrescimento bacteriano, o que ajuda a explicar por que pessoas com hipotireoidismo, especialmente quando pouco controlado, apresentam maior prevalência de SIBO.

Quando o SIBO compromete a absorção de nutrientes essenciais para a tireoide

A síntese e o metabolismo dos hormônios tireoidianos dependem diretamente da disponibilidade de alguns micronutrientes — iodo, selênio, zinco, ferro e vitamina B12 entre eles (revisão publicada na Nutrients, 2024). O problema é que o SIBO pode comprometer justamente a absorção desses nutrientes, criando um ciclo que dificulta o manejo do Hashimoto.

O guideline sobre SIBO publicado por Pimentel et al. (2020) no American Journal of Gastroenterology, em nome do American College of Gastroenterology, descreve os principais mecanismos envolvidos: bactérias em excesso no intestino delgado consomem parte da vitamina B12 disponível na luz intestinal, competindo com o organismo por esse nutriente; a desconjugação de sais biliares pelas bactérias prejudica a formação de micelas, o que reduz a absorção de gorduras e, consequentemente, de vitaminas lipossolúveis; e, em quadros mais intensos, pode haver dano à mucosa do intestino delgado, comprometendo ainda mais a absorção de minerais como ferro e zinco.

  • Vitamina B12: consumida pelas bactérias em excesso, resultando com frequência em níveis baixos associados a folato elevado;
  • Ferro e zinco: absorção prejudicada por inflamação e dano da mucosa intestinal;
  • Selênio: absorção pode ser afetada por alterações no epitélio intestinal, embora a evidência específica em SIBO ainda seja limitada;
  • Iodo: menos diretamente afetado pelo SIBO, mas seu metabolismo depende do equilíbrio geral do eixo intestino-tireoide.

Esse padrão de má absorção ajuda a explicar por que algumas pessoas com Hashimoto seguem apresentando exames alterados de ferro, B12 ou zinco mesmo com alimentação aparentemente adequada — um indício de que vale investigar, com o médico responsável, se há um fator digestivo por trás, como o SIBO.

Sinais que podem indicar a necessidade de investigar SIBO em quem já tem Hashimoto

Nem todo desconforto digestivo em quem tem Hashimoto é SIBO, e apenas um médico pode confirmar esse diagnóstico — geralmente por meio de teste respiratório (breath test) de hidrogênio e metano, solicitado por um gastroenterologista. Ainda assim, algumas situações tornam essa investigação mais relevante de ser discutida em consulta:

  • Distensão e inchaço abdominal que pioram ao longo do dia, especialmente após as refeições;
  • Gases excessivos, arrotos frequentes ou desconforto que não melhora com ajustes alimentares simples;
  • Alternância entre constipação e evacuações mais soltas, sem uma causa aparente;
  • Deficiências nutricionais persistentes (como B12, ferro ou zinco baixos) mesmo com suplementação orientada;
  • Hipotireoidismo de difícil controle, com sintomas digestivos associados, apesar da dose de levotiroxina ajustada pelo endocrinologista;
  • Histórico de outras condições associadas à motilidade intestinal lenta, como gastroparesia ou constipação crônica.

Se algum desses pontos fizer sentido para o seu quadro, o caminho é conversar com o endocrinologista ou gastroenterologista que acompanha o seu caso. A investigação e o diagnóstico do SIBO são atos médicos, e não algo a ser concluído apenas a partir de uma lista de sintomas.

O que a evidência mostra sobre tratar o SIBO e a função tireoidiana

Uma pergunta comum é se tratar o SIBO melhora automaticamente o quadro tireoidiano. A resposta, com base na evidência disponível, é mais cautelosa do que se poderia esperar. No próprio estudo de Lauritano et al. (2007), embora a descontaminação bacteriana — tratamento antibiótico indicado pelo médico — tenha melhorado sintomas digestivos como distensão e flatulência, os níveis plasmáticos dos hormônios tireoidianos não apresentaram alteração estatisticamente significativa após o tratamento do SIBO isoladamente.

Isso não significa que a relação entre os dois quadros seja irrelevante, mas sim que ela é mais complexa do que uma simples relação direta de causa e efeito. Revisões mais recentes sobre microbiota intestinal e doenças autoimunes da tireoide, como a de Gong et al. (2021), apontam associações consistentes entre alterações da microbiota e a autoimunidade tireoidiana, mas reforçam que ainda são necessários mais estudos controlados para determinar até que ponto intervenções sobre o intestino modificam o curso do Hashimoto. Na prática, isso reforça a importância de acompanhar cada condição em sua própria frente — o hipotireoidismo com acompanhamento endocrinológico e ajuste medicamentoso quando necessário, e o SIBO com investigação e conduta gastroenterológica —, com a nutrição funcionando como suporte para as duas, nunca como substituta de nenhuma delas.

Abordagem nutricional prática para quem convive com as duas condições

Equilibrando dieta anti-inflamatória e manejo de FODMAP

Quem tem Hashimoto muitas vezes já segue, com orientação nutricional, um padrão alimentar de perfil anti-inflamatório, com maior variedade de vegetais, fontes de ômega-3 e menos ultraprocessados. Quando o SIBO entra no quadro, esse padrão pode precisar de ajustes temporários: alimentos ricos em FODMAPs — certos tipos de fibras fermentáveis, presentes em itens como alho, cebola, algumas leguminosas e frutas específicas — tendem a piorar sintomas como distensão e gases nesse contexto, porque alimentam justamente o excesso de bactérias no intestino delgado.

O desafio nutricional está em equilibrar dois objetivos que podem parecer conflitantes: manter a diversidade alimentar que sustenta a microbiota e apoia o manejo do Hashimoto, e, ao mesmo tempo, reduzir temporariamente alimentos fermentáveis que pioram os sintomas do SIBO enquanto o tratamento médico está em curso. Esse ajuste costuma funcionar melhor como uma fase transitória e supervisionada, não como um padrão alimentar permanente.

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Evitando restrição excessiva

Um risco real de sobrepor dois protocolos alimentares restritivos — anti-inflamatório e baixo FODMAP — é a criação de uma dieta excessivamente limitada, que pode aprofundar deficiências nutricionais já favorecidas pelo próprio SIBO. Por isso, o acompanhamento nutricional individualizado é importante: a ideia é identificar, com testes de tolerância e reintrodução gradual, quais alimentos realmente precisam ser reduzidos naquele momento, evitando cortes desnecessários de grupos alimentares inteiros.

Nesse processo, costuma-se dar atenção especial à qualidade proteica, à densidade de micronutrientes — com foco em ferro, zinco, selênio e B12 — e à escolha de fontes de fibra mais bem toleradas, adaptando quantidade e tipo conforme a resposta individual. O acompanhamento nutricional funciona em paralelo ao tratamento médico do SIBO, nunca no lugar dele.

Quando procurar endocrinologista, quando procurar gastroenterologista

Diante da sobreposição entre Hashimoto e sintomas digestivos, é comum surgir a dúvida sobre qual especialista procurar primeiro. De forma geral:

  • Endocrinologista: responsável pelo diagnóstico e acompanhamento do hipotireoidismo/Hashimoto, incluindo solicitação de exames tireoidianos, ajuste da dose de levotiroxina (ou outro medicamento) e investigação de outras condições autoimunes associadas.
  • Gastroenterologista: responsável pela investigação de sintomas digestivos persistentes, incluindo a solicitação do teste respiratório para SIBO e a definição da conduta terapêutica, geralmente antibiótica, além de descartar outras causas gastrointestinais para os sintomas.
  • Nutricionista: atua de forma complementar aos dois, ajustando a alimentação para dar suporte ao manejo do Hashimoto e dos sintomas digestivos, sempre alinhada às orientações médicas de cada especialidade.

Na prática, muitas pessoas com Hashimoto e suspeita de SIBO se beneficiam de uma condução conjunta entre esses profissionais, já que os dois quadros se influenciam mutuamente. Se os sintomas digestivos persistirem mesmo com o hipotireoidismo bem controlado pela medicação, vale levar essa informação ao endocrinologista e considerar, junto a ele, o encaminhamento para avaliação gastroenterológica.

Perguntas frequentes

SIBO pode causar Hashimoto?

Não existe evidência de que o SIBO cause diretamente o Hashimoto. O que a literatura mostra é uma associação entre alterações na microbiota intestinal e a autoimunidade tireoidiana, com mecanismos como aumento da permeabilidade intestinal e ativação imunológica ainda sendo investigados (Gong et al., 2021). O Hashimoto tem origem multifatorial, envolvendo predisposição genética e fatores ambientais, e seu diagnóstico deve ser feito por um médico.

Hipotireoidismo tratado com levotiroxina ainda pode causar SIBO?

Sim, é possível. Mesmo com a reposição hormonal em curso, alterações residuais na motilidade intestinal podem persistir, especialmente se o controle hormonal ainda não estiver totalmente estabilizado. Por isso, sintomas digestivos persistentes merecem investigação mesmo em quem já usa levotiroxina, e essa avaliação deve ser feita pelo endocrinologista ou gastroenterologista.

Quais exames identificam o SIBO?

O exame mais utilizado é o teste respiratório (breath test) de hidrogênio e metano, solicitado por um gastroenterologista, que mede os gases produzidos pelas bactérias após a ingestão de um substrato específico. A interpretação do resultado e a definição da conduta são de responsabilidade médica.

A dieta low FODMAP substitui o tratamento medicamentoso do SIBO?

Não. A dieta baixa em FODMAPs pode ajudar a reduzir sintomas como distensão e gases enquanto o tratamento médico do SIBO está em andamento, mas não substitui a conduta definida pelo gastroenterologista, que geralmente envolve terapia antibiótica direcionada. O uso prolongado e sem orientação profissional também não é indicado, pelo risco de restrição alimentar excessiva.

Quais nutrientes merecem atenção especial em quem tem Hashimoto e SIBO?

Vitamina B12, ferro, zinco e selênio costumam merecer atenção redobrada nesse grupo, já que são relevantes para a função tireoidiana e podem ter a absorção prejudicada pelo SIBO. A avaliação laboratorial periódica, feita junto ao médico, ajuda a identificar a necessidade de suplementação individualizada.

É seguro fazer dieta restritiva por conta própria para tratar os sintomas?

Não é recomendável iniciar dietas restritivas de forma isolada, sem orientação profissional, especialmente em quem já tem Hashimoto. Restrições mal planejadas podem aprofundar deficiências nutricionais e não substituem a investigação médica dos sintomas digestivos. O ideal é buscar acompanhamento nutricional e médico conjunto antes de eliminar grupos alimentares inteiros.


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Taissa Castello é nutricionista inscrita no CRN-4 25106120. Atendimento 100% por teleconsulta, para todo o Brasil, sempre em conjunto com o acompanhamento médico do paciente.

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Última revisão por Taissa Castello, nutricionista CRN-4 25106120, em 11/07/2026.

Taissa Castello
Taissa Castello Fonseca
Nutricionista Clínica • CRN-4 25106120

Especializada em doença celíaca, SIBO, doenças autoimunes e saúde da mulher. Celíaca há 9 anos. Atende 100% online para todo o Brasil.

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